Uma resposta adequada ao problema do mal

Introdução

O debate contemporâneo acerca do problema do mal, especialmente dentro da tradição analítica e da ortodoxia teológica, peca por tomar a discussão como algo abstrato. A motivação é basicamente tomar certas propriedades ideais — como onisciência, onipotência, onibenevolência e perfeição — atribuídas a um indivíduo ideal — Deus — frente a certas condições que servem como contraexemplos a expectativas ideais — casos que remetem à existência do mal — e, diante disso, buscar uma tese coerente que concilie todos os elementos dispostos sem contradições. Contudo, na Bíblia, há fontes textuais que, se lidas naturalmente e sem enviesamento ortodoxo, corroboram que Deus não conhece certas coisas de antemão, não pode fazer absolutamente tudo, comete falhas, provoca males e passa por dilemas pessoais de ordem moral. E, como veremos, isso nos fornece um caminho para resolver o problema do mal, que se realiza na figura de Jesus Cristo.

Da onisciência divina

O debate contemporâneo sobre o problema do mal baseia-se em um tipo de característica ideal e exagerada de “conhecimento perfeito sobre tudo” atribuído a Deus, a qual inclui a presciência, isto é, saber sobre tudo o que vai ocorrer antes de ter ocorrido. A disputa ao redor da presciência divina é relevante para o debate do problema do mal em razão de ela levantar o seguinte questionamento: se Deus sabe que males irão acontecer, por que ele não os evita? Dito isso, apesar de muitos filósofos teístas não estarem disposto a abrirem mão da presciência divina, Deus não é retratado como absolutamente presciente na Bíblia. É comum, por exemplo, encontrar na Bíblia episódios onde Deus precisa testar o seu povo a fim de saber sobre sua lealdade. No entanto, se o Deus bíblico precisa estabelecer testes para saber seus resultados e se presciência significa saber previamente tudo que irá ocorrer em determinadas condições, parece que o Deus bíblico não é absolutamente presciente, caso contrário não precisaria fazer testes, pois, já conheceria previamente o resultado de qualquer possível teste que viesse a fazer. Um exemplo de teste feito por Deus é relatado na passagem a seguir, onde Deus revela que os 40 anos que seu povo passou no deserto foram um teste feito por Ele a fim de descobrir a intenção das pessoas e se elas obedeceriam aos seus mandamentos ou não:

Tenham o cuidado de obedecer toda a lei que eu hoje lhes ordeno, para que vocês vivam, multipliquem-se e tomem posse da terra que o Senhor prometeu, com juramento, aos seus antepassados. Lembre-se de como o Senhor, o seu Deus, os conduziu por todo o caminho no deserto, durante estes quarenta anos, para humilhá-los e pô-los à prova, a fim de conhecer suas intenções, se iriam obedecer aos seus mandamentos ou não.

Deuteronômio 8:1,2

Nesse caso, se Deus fosse presciente, ele já saberia de antemão quais seriam as intenções das pessoas nessas condições e também já saberia se elas obedeceriam ou não aos seus mandamentos, sem a necessidade de pôr o teste em prática. Outro episódio semelhante ocorre quando Deus envia falsos profetas a fim de saber se as pessoas seguiriam os deuses de tais profetas ou não, como pode ser visto abaixo:

Se aparecer entre vocês um profeta ou alguém que faz predições por meio de sonhos e lhes anunciar um sinal miraculoso ou um prodígio, e se o sinal ou prodígio de que ele falou acontecer, e ele disser: “Vamos seguir outros deuses que vocês não conhecem e vamos adorá-los”, não deem ouvidos às palavras daquele profeta ou sonhador. O Senhor, o seu Deus, está pondo vocês à prova para ver se o amam de todo o coração e de toda a alma.

Deuteronômio 13:1–3

E mais um exemplo de teste feito por Deus foi aquele destinado ao Rei Ezequias, ao deixá-lo quando governantes da Babilônia buscaram saber sobre o sinal miraculoso que teria ocorrido no país. O objetivo de Deus era conhecer tudo o que havia no coração de Ezequias nessas condições, como consta na passagem a seguir:

Foi Ezequias que bloqueou o manancial superior da fonte de Giom e, canalizou a água para a parte oeste da cidade de Davi. Ele foi bem sucedido em tudo o que se propôs a fazer. Mas, quando os governantes da Babilônia enviaram uma delegação para perguntar-lhe acerca do sinal miraculoso que havia ocorrido no país, Deus o deixou, para prová-lo e para saber tudo o que havia em seu coração.

2 Crônicas 32:30,31

Ora, se Deus fosse presciente de tal modo que saberia tudo o que viria a ocorrer em determinadas situações, ele não precisaria desse tipo de teste, uma vez que, como já explicado anteriormente, Ele já saberia previamente o resultado sem a necessidade de colocar o teste em prática. Diante disso, nota-se que o debate contemporâneo sobre o problema do mal baseia-se, de fato, em um tipo de característica ideal e exagerada de “conhecimento perfeito sobre absolutamente tudo” que não possui bases na Bíblia.

A negação da presciência divina está de acordo com o que contemporaneamente é chamado de teísmo aberto, que concebe Deus como conhecedor de tudo sobre o mundo atual e como conhecedor de futuros possíveis, porém, não como conhecedor de qual futuro se realizará. No entanto, a negação da presciência divina não resolve por si só o problema do mal, afinal, mesmo que Deus não conheça o futuro, Ele conhece suficientemente o presente para evitar males atuais. Por exemplo, Deus poderia não saber que o Holocausto iria acontecer, mas, enquanto ocorria, ele sabia dos males que ocorriam. Logo, a pergunta retorna: por que Deus não deu fim a esses males que ocorriam? Porém, mesmo que o teísmo aberto não resolva o problema do mal inteiramente, ele estabelece uma forte limitação a Deus que é capaz de justificar pelo menos uma parcela da existência do mal, como males que podem ter surgido em razão de algo ter fugido de Seu controle, enquanto Alguém que não conhece como será exatamente o futuro. Tal como parece ter ocorrido com o Deus bíblico na narrativa do dilúvio, onde Ele arrependeu-se de ter criado a humanidade em razão do aumento da maldade humana:

O Senhor viu que a perversidade do homem tinha aumentado na terra e que toda a inclinação dos pensamentos do seu coração era sempre e somente para o mal. Então o Senhor arrependeu-se de ter feito o homem sobre a terra; e isso cortou-lhe o coração.

Gênesis 6:5,6

Esse arrependimento de Deus não teria ocorrido se as coisas não tivessem fugido de seu controle, afinal, se Ele sabia desde o primeiro instante da criação que haveria tantos males no mundo do exato modo como houve, isso não seria uma surpresa para Ele de forma alguma e não haveria razão para se arrepender. Apesar de em várias outras passagens da Bíblia Deus ser retratado como possuindo incalculável conhecimento, a exemplo de Salmos 139, uma presciência divina exagerada não parece estar inclusa no conjunto de coisas que configuram tal conhecimento incalculável. Como dito antes, isso não resolve o problema do mal por inteiro, mas pelo menos parcialmente é capaz de explicar a existência de alguns males.

Da onipotência divina

A concepção padrão de onipotência concebida no debate contemporâneo significa basicamente ser capaz de fazer tudo o que não incorre em contradição lógica. Tendo isso em vista, na perspectiva do homem moderno, isso parece implicar que Deus tem uma capacidade ilimitada de desafiar a natureza e suas leis. No entanto, se lermos de maneira natural as narrativas da Bíblia sobre os feitos divinos, iremos notar que estamos diante de um Deus que age no mundo de maneira mais limitada do que o esperado. A título de exemplo voltemos à narrativa do dilúvio. Diante dessa narrativa, alguém poderia questionar o porquê de Deus não ter simplesmente feito desaparecer magicamente todas as pessoas da Terra, com exceção de Noé e sua família. Se o Seu objetivo era resetar Sua criação, não teria sido mais simples ter feito aquilo ao invés de convocar Noé para construir uma arca, reunir vários animais e inundar todo o Planeta? Bem, isso parece evidenciar que as façanhas do Deus bíblico ocorrem de maneira bem mais limitada do que espera o homem moderno.

Outro exemplo é a narrativa da fuga de Moisés do Egito junto ao povo judeu (Êxodo 14). Enquanto Moisés e o povo são perseguidos pelas tropas do faraó, eles se deparam com o Mar Vermelho aparentemente instransponível, até que Deus, através de Moisés, abre as águas do Mar Vermelho a fim de que seu povo atravessasse em segurança. Tendo isso em vista, alguém poderia questionar o porquê de Deus simplesmente não ter transportado magicamente o povo de um lado para o outro. Bem, isso parece ser outra evidência de que as façanhas do Deus bíblico ocorrem de maneira bem mais limitada do que se espera. As possibilidades de ação de Deus, apesar de grandiosas, não parecem desafiar de maneira ilimitada a natureza e suas leis. Mesmo nas passagens sobre guerras onde é dito que Deus auxiliou o povo de Israel, não há façanhas de Deus destruindo magicamente os povos inimigos. Por exemplo, na batalha em Gibeão sob a liderança de Josué (Josué 10), Deus auxilia o povo de Israel jogando pedras sob os inimigos e “parando” o Sol e a Lua, o que pode também ser interpretado como um eclipse solar. Diante disso, nota-se que, na Bíblia, as intervenções divinas no mundo são, de fato, limitadas.

Porém, há narrativas em que Deus intervém no mundo a fim de evitar que males ocorram a certas pessoas. Por exemplo, Deus salvou Daniel de ser devorado por leões (Daniel 6) e salvou Sadraque, Mesaque e Abede-Nego de serem queimados em uma fornalha (Daniel 3). Ou seja, mesmo que a ação divina seja limitada, a Bíblia ainda demonstra que Deus pode agir para evitar que males aconteçam. Contudo, na guerra contra os cananeus após a morte de Josué, encontramos um episódio onde é narrado que, apesar de Deus estar junto aos homens de Judá, contribuindo para a morte de inimigos, isso não foi suficiente para que eles conseguissem vencer homens que possuíam carros de guerra feitos de ferro:

O Senhor estava com os homens de Judá. Eles ocuparam a serra central, mas não conseguiram expulsar os habitantes dos vales, pois estes possuíam carros de guerra feitos de ferro.

Juízes 1:19

Uma leitura natural dessa passagem nos leva ao entendimento de que, mesmo com a ajuda de Deus, não foi possível superar um mal específico: homens tecnologicamente mais poderosos. Isso nos leva a crer que Deus, mesmo tendo poderes para evitar certos males, nem sempre consegue evitar outros males. Portanto, parece que a Bíblia não corrobora a atribuição de uma onipotência idealmente exagerada a Deus, enquanto um atributo que permite Deus fazer literalmente qualquer coisa que não seja logicamente contraditória. Mesmo sendo muito poderoso em relação às suas criaturas, há razões que indicam que Ele intervém de maneira limitada no mundo e que nem sempre é capaz de evitar que males aconteçam. Se isso é o caso, então, é possível explicar que certos males existem em razão de Deus não conseguir evitá-los.

Da perfeição e onibenevolência de Deus

A perfeição divina retratada no debate contemporâneo é um aspecto de Deus que significa que, para toda propriedade atribuível a Deus, Ele a possui em grau infinitamente máximo. Por exemplo, a bondade é algo atribuível a Deus, portanto, ele a possui em grau infinitamente máximo, sendo perfeitamente bondoso, isto é, onibenevolente. No entanto, desde a tradição judaica, encontramos textos que não atestam essa maneira exagerada de compreender a natureza de Deus. Por exemplo, no Talmude, há um retrato de Deus cometendo falhas durante a criação e precisando de expiação para esse seu “pecado”:

Rabi Shimon ben Pazi levanta uma contradição entre dois versos. Está escrito: “E Deus fez os dois grandes luminares” (Gênesis 1:16), e também está escrito no mesmo versículo: “O luminar maior para governar o dia, e o luminar menor para governar a noite”, indicando que apenas um foi grandioso. Rabi Shimon ben Pazi explica: Quando Deus criou o sol e a lua, eles eram igualmente brilhantes. Então, a lua disse diante do Santo, Bendito seja Ele: Mestre do Universo, é possível que dois reis sirvam com uma coroa? Um de nós deve ser subserviente ao outro. Deus, portanto, disse a ela, ou seja, a lua: Se assim for, vá e diminua-se.

Ela disse diante dele: Mestre do Universo, já que eu disse uma observação correta diante de Ti, devo me diminuir? Deus disse a ela: Como compensação, vá e governe tanto durante o dia junto com o sol quanto durante a noite. Ela disse a Ele: Qual é a grandeza de brilhar ao lado do sol? Para que serve uma vela no meio do dia? Deus lhe disse: Vá; deixe o povo judeu contar os dias e os anos com você, e esta será a sua grandeza. Ela lhe disse: Mas o povo judeu contará também com o sol, pois é impossível que não conte as estações com ele, como está escrito: “E sejam eles para sinais, e para estações, e para dias. e anos” (Gênesis 1:14). Deus lhe disse: Vá; que os justos recebam o seu nome. Assim como você é chamado de luz menor [hakatan], haverá Ya’akov HaKatan, ou seja, Jacó, nosso antepassado (ver Amós 7:2), Shmuel HaKatan, o tanna, e David HaKatan, ou seja, o Rei Davi (ver I Samuel 17:14).

Deus viu que a lua não foi consolada. O Santo, Bendito seja Ele, disse: Traga expiação para mim, pois diminuí a lua. A Guemará observa: E isso é o que o rabino Shimon ben Lakish diz: O que é diferente sobre a oferta de bode da Lua Nova, que é declarado em relação a ela: “Para o Senhor” (Números 28:15)? O Santo, Bendito seja Ele, disse: Este bode será uma expiação para Mim por ter diminuído o tamanho da lua. (tradução minha e grifos meus)

Ou seja, nota-se que Deus não era retratado como exageradamente perfeito tal como é retratado no debate filosófico religioso contemporâneo. Nesse retrato, Deus é um ser que comete falhas. E isso não foi tradicionalmente visto como algo que faria Deus deixar de ser Deus. Logo, se Deus comete falhas, a existência de alguns males poderia ser interpretada como a existência de algumas falhas cometidas por Deus no mundo.

Mas, se Deus poderia cometer falhas cujos resultados são males, isso não minaria o atributo da onibenevolência de Deus? Tradicionalmente, isso também não parece ter sido visto como um problema. Afinal, na própria Bíblia há passagens que afirmam que a fonte do mal é o próprio Deus:

Eu formo a luz e crio as trevas, promovo a paz e causo a desgraça; eu, o Senhor, faço todas essas coisas.

Isaías 45:7

E nesta:

Não é da boca do Altíssimo que vêm tanto as desgraças como as bênçãos?

Lamentações 3:38

Isso significa que a existência do mal jamais foi vista tradicionalmente como algo que contradiz a existência de Deus. Muito pelo contrário: o mal foi visto como tendo fonte o próprio Deus. Tendo isso em vista, ao contrário do que pode parecer, esse retrato é bastante coerente com a ideia de Deus. Afinal, Deus é a fonte eterna de tudo, de onde tudo transborda, e o mal não poderia ser uma exceção.

Outros textos bíblicos que atestam que a fonte do mal é o próprio Deus, são passagens paralelas de diferentes livros da Bíblia que retratam o mesmo evento: quando Davi ordenou fazer um censo em Israel. Nelas, Deus irado e Satanás são retratados como sendo o mesmo sujeito que levou Davi a estabelecer tal ordem, o que evidencia que, na própria Bíblia, o mal (Satanás) é uma faceta do próprio Deus. Veja aqui:

Mais uma vez, irou-se o Senhor contra Israel. E incitou Davi contra o povo, levando-o a fazer um censo de Israel e de Judá. Então o rei disse a Joabe e aos outros comandantes do exército: “Vão por todas as tribos de Israel, de Dã a Berseba, e contem o povo, para que eu saiba quantos são”. Joabe, porém, respondeu ao rei: “Que o Senhor teu Deus multiplique o povo por cem, e que os olhos do rei, meu senhor, o vejam! Mas, por que o rei, meu senhor, deseja fazer isso? ”

2 Samuel 24:1–3 (grifos meus)

E aqui:

Satanás levantou-se contra Israel e levou Davi a fazer um recenseamento do povo. Davi disse a Joabe e aos outros comandantes do exército: “Vão e contem os israelitas desde Berseba até Dã e tragam-me um relatório para que eu saiba quantos são”.

1 Crônicas 21:1,2 (grifos meus)

E essa visão do mal (Satanás) como uma faceta do próprio Deus não é uma interpretação livre e desorientada da Bíblia, mas sim uma interpretação que encontra suporte em fontes judaicas alternativas, como no texto cabalístico Sefer ha-Bahir, onde o mal (Satanás) é descrito como sendo um atributo do próprio Deus:

Como é isso? Um rei tinha uma filha linda, e outros a desejavam. O rei sabia disso, mas não podia lutar contra aqueles que queriam levar sua filha a maus caminhos. Ele foi até sua casa e a avisou, dizendo: “Minha filha, não dê atenção às palavras desses inimigos e eles não poderão vencê-la. Não saia de casa, faça todo o seu trabalho somente em casa. Não fique ociosa, nem por um único momento. Então eles não poderão vê-la e prejudicá-la.” Eles têm um Atributo que os leva a deixar de lado todo caminho bom e escolher todo caminho mau. Quando eles veem uma pessoa se orientando por um bom caminho, eles a odeiam. O que é [este Atributo]? É o Satanás. Isso nos ensina que o Santo Abençoado tem um Atributo cujo nome é Mal. É ao norte do Santo Abençoado, como está escrito (Jeremias 1:14), “Do norte virá o mal, sobre todos os habitantes da terra.” Qualquer mal que venha a todos os habitantes da terra vem do norte. (tradução minha e grifos meus)

Ademais, na Bíblia há várias passagens onde é narrado que Deus ordena atos que qualquer pessoa razoável identificaria como sendo maus se não houvesse o peso de que “foi Deus quem mandou”. Um exemplo é a passagem abaixo, sobre a qual podemos nos perguntar: por que Deus não pouparia a vida de inocentes? Isso não parece correto. Veja:

Samuel disse a Saul: “Eu sou aquele a quem o Senhor enviou para ungi-lo como rei de Israel, o povo dele; por isso escute agora a mensagem do Senhor.
Assim diz o Senhor dos Exércitos: ‘Castigarei os amalequitas pelo que fizeram a Israel, atacando-os quando saíam do Egito.
Agora vão, ataquem os amalequitas e consagrem ao SENHOR para destruição tudo o que lhes pertence. Não os poupem; matem homens, mulheres, crianças, recém-nascidos, bois, ovelhas, camelos e jumentos’’’.

1 Samuel 15:1–3

Além de ações moralmente falhas, outras passagens evidenciam que Deus é um ser suscetível a dilemas pessoais que ecoam moralmente, como quando Deus castigou Davi ao matar setenta mil homens e esteve prestes a destruir Jerusalém, porém, arrependeu-se quando esteve na iminência de agir, conforme pode ser lido na passagem a seguir:

Então o Senhor enviou uma praga sobre Israel, e setenta mil homens de Israel morreram. E Deus enviou um anjo para destruir Jerusalém. Mas, quando o anjo ia fazê-lo, o Senhor olhou e arrependeu-se de trazer a catástrofe, e ele disse ao anjo destruidor: “Pare! Já basta! “ Naquele momento o anjo do Senhor estava perto da eira de Araúna, o jebuseu.

1 Crônicas 21:14,15

Diante do exposto, encontramos razões bíblicas que corroboram que Deus comete falhas, executa males criticáveis e passa por dilemas pessoais, o que está muito distante da visão contemporânea presente nos debates de círculos analíticos, que atribuem a Deus propriedades morais idealmente exageradas. Portanto, apegando-se ao retrato tradicional, podemos explicar a existência de certos males também apelando para o fato de que Deus não é exageradamente perfeito e onibenevolente nos termos que o debate contemporâneo pressupõe. Desse modo, alguns males podem ser resultado de falhas divinas que possuem implicações morais, de forma análoga com o que ocorre com seres humanos. Contudo, isso não significa que Deus é mau, pois a Bíblia também retrata Deus como sendo a fonte de todo bem (Salmo 5:4-5 e Tiago 1:13-17). Isso significa que Deus é um agente moral com virtudes, mas que comete erros.

Resolvendo o problema lógico do mal

Portanto, diante de tudo o que foi exposto, encontramos um Deus com conhecimento e poderes limitados e que comete falhas, provoca males e passa por dilemas pessoais. O problema do mal, do ponto de vista estritamente lógico, pode ser respondido simplesmente apontando para o fato de que as propriedades ideais de Deus pressupostas no debate contemporâneo, as quais são apontadas como razões de porque não deveria haver o mal, não existem tradicionalmente da maneira exagerada como são retratadas. Na verdade, tomar os atributos tradicionais de Deus exageradamente é algo que, como visto no próprio debate contemporâneo sobre o problema do mal, gera contradições que se mostram insolucionáveis dada a persistência de tantos desacordos. Posto isso, Yoram Hazony nos chama a atenção para o fato de que as características de Deus encontradas nas Escrituras são na verdade metáforas que não devem ser exageras e nem idealizadas, sob o preço de elas próprias se tornarem inválidas. Em suas palavras:

A teologia do ser perfeito invoca metáforas para descrever os atributos de Deus, mas, em geral, essas metáforas parecem ser menos úteis para entender Deus do que as metáforas encontradas nas Escrituras e no ensino rabínico. Isso se deve ao fato de que as supostas perfeições de Deus são derivadas da idealização de outras metáforas que são mais facilmente compreendidas. Por exemplo, a afirmação de que Deus é “todo-poderoso” é uma idealização da metáfora de que Deus age no mundo como seu senhor e rei. A afirmação de que Deus é “onisciente” é uma idealização da metáfora de que Deus governa como um rei sábio. A afirmação de que Deus é perfeitamente simples e não tem partes é uma idealização da metáfora de que o Deus que governa o céu e a terra é um. A afirmação de que Deus é imutável é uma idealização da metáfora de que o Deus que governa a terra mantém a fé com aqueles que são fiéis a ele. E assim por diante.

Mas essas idealizações têm um preço alto. Pois o propósito de cada metáfora é chamar a atenção para o que se supõe ser uma analogia válida entre a experiência humana do mundo e nossa experiência de um senhor ou rei humano. No entanto, quanto mais idealizada a metáfora se torna, mais difícil é ver como ela pode ser aplicada de tal maneira que ainda seja válida. Em outras palavras, a idealização da metáfora é sempre um exagero da metáfora e uma distorção dela. E quanto mais a metáfora é distorcida, menos ela parece se aplicar. (tradução minha)

Conclusão: o verdadeiro caminho para resolver o problema do mal

Na Bíblia, ao invés do retrato de um Deus exageradamente perfeito que parece estar brincando com a humanidade, encontramos na verdade um Deus que pode cometer falhas. Porém, como também podemos encontrar na Bíblia, essas falhas podem ser reparadas com auxílio de seu próprio povo. Por exemplo, no livro de Êxodo, há uma passagem que narra Deus enfurecido com seu povo em razão da feitura e adoração de um bezerro de ouro, onde Ele decide destruir o povo:

Disse o Senhor a Moisés: “Tenho visto que este povo é um povo obstinado.
Deixe-me agora, para que a minha ira se acenda contra eles, e eu os destrua. Depois farei de você uma grande nação”.

Êxodo 32:9,10

Mas, conforme é narrado, Moisés suplicou a Ele que não procedesse dessa forma, e Deus, atendendo à súplica de Moisés, arrependeu-se do mal que havia ameaçado cometer contra o povo e voltou atrás:

E sucedeu que o Senhor arrependeu-se do mal que ameaçara trazer sobre o povo.

Êxodo 32:14

Ou seja, Deus, com auxílio de Moisés, foi capaz de enxergar o mal que iria cometer e, assim, mudou de ideia, o que significa que Ele é retratado na Bíblia como um agente moral capaz de errar, apreender e acertar. E é exatamente esse processo de aprendizagem divino que torna Deus próximo de nós. Tendo isso em vista, o mal não é meramente um problema lógico a ser resolvido abstratamente, mas, nas palavras de Byron Sherwin, uma característica ontológica necessária do mundo e uma característica teológica necessária de Deus que precisa constantemente ser combatida, por Deus junto à humanidade. Não por acaso Deus fez-se homem, o que lhe proporcionou aprender em primeira pessoa como é ser tentado pelo mal enquanto humano, no episódio de Jesus Cristo no deserto (Lucas 4:1-13). E, na forma de homem, Deus ofereceu um caminho de salvação para toda a humanidade, cuja mensagem de paz é levada por e para homens. Desse modo, o mal pode ser combatido por nós junto a Ele, afinal, todo processo de harmonização do mundo promovido por nós é manifestação do próprio Deus, O qual permeia tudo em razão de tudo ser parte dEle. Esse é o verdadeiro caminho para resolver o “problema do mal”.

1 comentário Adicione o seu

  1. Existem também outras possibilidades para se resolver o problema. Leibniz, Orígenes (o cristão) e muitos outros filósofos julgaram correta a onisciência de Deus e apresentaram alternativas para entender por que exatamente há os malefícios em nosso mundo.

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