Os problemas da imutabilidade divina

Gabriel Brasileiro

Introdução

O teísmo clássico, que é como convencionalmente é chamando o segmento filosófico religioso comprometido com ideias que remetem a autores cristãos medievais como Tomás de Aquino, crê na imutabilidade divina. Esse dogma afirma que Deus é um ser imutável, isto é, um ser que não apresenta mudanças. Isso significa que Deus é retratado como um ser absolutamente simples, um puro ato, sem potencialidades e completamente simultâneo. Desse modo, Deus é exatamente o mesmo em todos os mundos possíveis, mesmo em um mundo possível que represente um Universo absolutamente diferente do atual. Contudo, como será demonstrado a seguir, esse dogma é filosoficamente e biblicamente inconsistente.

O problema segundo a filosofia

Se no teísmo clássico Deus poderia criar um Universo diferente do Universo que existe, parece que, em um mundo possível onde Deus cria um Universo diferente, o próprio Deus seria diferente no seguinte sentido: Deus teria conhecimentos diferentes, em razão de existirem outras verdades, como o conhecimento de que “outro Universo é real”, de semelhante modo a nós que teríamos o conhecimento de que “unicórnios são reais” se unicórnios fossem reais.

Ademais, segundo o teísmo clássico, Deus conhece todos os momentos do tempo em um único ato simples. Uma vez que, sendo imutável, Ele não conheceria as coisas como suas criaturas, cuja forma de conhecer se dá sempre sob uma perspectiva limitada que muda conforme as coisas mudam para elas. Por exemplo, o conhecimento de que eu estava em pé — “eu sei que estou em pé” — mudou quando eu sentei e passei a conhecer meu atual estado, de tal modo que “eu sei que estou sentado”. Isso significa que o conhecimento humano sobre o mundo é atualizado conforme as coisas mudam para nós. Contudo, essa constante atualização do conhecimento não poderia ser atribuída a Deus, visto que Ele é imutável. No entanto, se o presentismo estiver correto, somente o presente existe e o futuro ainda não, o que significa que Deus poderia saber com certeza o que iria ocorrer no futuro, mas, se o futuro não existia e veio a existir, isso implicaria uma atualização do conhecimento divino de “eu sei que o futuro F passará a existir” para “eu sei que o futuro F passou a existir”. Além disso, mesmo se o eternalismo estiver correto e passado, presente e futuro coexistem, ainda há um fato conhecido pela ciência que está em constante atualização: a expansão do Universo — o bloco onde todos os momentos do tempo coexistem. Portanto, se o Universo ainda não tinha o volume V e, conforme expandia, passou a ter o volume V, isso significa que Deus poderia saber com certeza que o Universo iria ter o volume V, mas, se o Universo ainda não tinha o volume V e passou a ter, isso implicaria uma atualização do conhecimento divino de “eu sei que o Universo passará a ter o volume V” para “eu sei que o Universo passou a ter o volume V”. De uma forma ou de outra, o conhecimento divino seria atualizado e Deus apresentaria mudanças.

Uma possível resposta para o problema que envolve a possibilidade de Deus ter criado outro Universo é a alegação de que Deus teria conhecimento sobre todos os mundos possíveis, logo, qualquer outro Universo criado não representaria uma diferenciação no conhecimento de Deus, que já conheceria tudo o que viesse a acontecer. No entanto, conhecer algo enquanto possibilidade não é o mesmo que conhecer algo enquanto realidade. Por exemplo, um inventor que projeta detalhadamente uma máquina funcional que ainda não existe conhece mundos possíveis onde a máquina existe, porém, ele sabe que “a máquina não existe”, pois, não é verdade que a máquina existe. No entanto, se a máquina vem a ser construída, então, o inventor passaria a ter o conhecimento enquanto realidade de que “a máquina existe”, pois agora seria verdade que a máquina existe. Do mesmo modo, Deus, apesar de poder ter conhecimento sobre todos os mundos possíveis, só poderia ter conhecimento de que “alguma coisa existe” se é verdade que essa coisa existe. Portanto, se existisse outro Universo ao invés deste, Deus teria o conhecimento “outro Universo existe” ao invés de “este Universo existe”; mesmo que, enquanto possibilidade, ele já conhecesse de antemão todos os mundos possíveis acerca de ambos os Universo. Ou seja, Deus teria um conhecimento diferente caso outro Universo fosse real. Ademais, para tentar fugir desse problema, o teísta clássico pode alegar ainda que Deus criou todos os Universo possíveis e, assim, todos mundos possíveis são reais. No entanto, o problema persistiria na medida que ainda existiria um mundo possível onde Deus não teria criado qualquer Universo e, assim, Deus seria diferente nesse mundo possível por ter o conhecimento “nenhum Universo existe”. Outra possível alegação é a de que Deus não poderia criar um Universo diferente, no entanto, isso parece atentar ao atributo da onipotência e não parece ser o tipo de concessão que um teísta clássico normalmente está disposto a fazer.

Quanto ao problema que envolve a necessidade do conhecimento de Deus atualizar conforme novas coisas acontecem, o teísta clássico precisa pensar em algum subterfúgio cuja implicação seja o conhecimento de Deus não mudar apesar de haver mudanças no mundo real. É difícil pensar em algum subterfúgio do tipo, pois, dado que é uma característica essencial do conhecimento ser uma crença verdadeira—isto é, haver uma correspondência entre um estado intelectivo tal e algo que é o caso — , se há um estado de coisas que ainda não é o caso, é impossível que haja uma crença verdadeira sobre ele. Por exemplo, se o futuro onde João está na Índia ainda não existe, ainda não é verdade que João está Índia. A crença de que João está na Índia só será verdadeira quando ele estiver na Índia de fato. Desse modo, se o futuro ainda não existe, mesmo que Deus saiba que “João estará na Índia”, é impossível que ele saiba que “João está na Índia”, pois isso não é verdade ainda, isto é, ainda não é o caso. Do mesmo modo, é impossível que Deus saiba que o Universo tem volume V se ainda não é verdade que o Universo possui tal volume, apesar dele poder saber que o Universo terá tal volume. Portanto, não parece haver outra alternativa senão aceitar que o conhecimento de Deus muda conforme novas coisas verdadeiras passam a ser o caso, o que implica que Deus não é imutável.

Diante de tais argumentos, parece que o dogma da imutabilidade divina é filosoficamente insustentável. No entanto, a imutabilidade divina não é algo necessário para a crença em Deus, pois existem outras tradições filosóficas que aceitam a mutabilidade divina tranquilamente, como o teísmo neoclássico, o teísmo aberto, o teísmo do processo, o panenteísmo etc. Isso é um problema exclusivo do teísmo clássico. E, conforme veremos abaixo, a Bíblia Hebraica não corrobora a imutabilidade divina.

O problema segundo a Bíblia

Existem muitas passagens na Bíblia Hebraica que evidenciam que, ao contrário do que os teístas clássicos acreditam, Deus é um ser que experimenta mudanças. No livro de Êxodo, por exemplo, há uma passagem que narra que Deus decidiu destruir o seu povo devido à feitura do bezerro de ouro destinado à adoração:

Disse o Senhor a Moisés: “Tenho visto que este povo é um povo obstinado.
Deixe-me agora, para que a minha ira se acenda contra eles, e eu os destrua. Depois farei de você uma grande nação”.

Êxodo 32:9,10

Então é dito que Moisés suplicou a Deus que não fizesse isso, e Deus, atendendo à súplica de Moisés, arrependeu-se e mudou de ideia:

E sucedeu que o Senhor arrependeu-se do mal que ameaçara trazer sobre o povo.

Êxodo 32:14

Nesse episódio, observa-se que Deus possuía uma pretensão e que depois desistiu do que pretendia. Isso representa uma clara mudança na intenção de Deus que corrobora que a Bíblia Hebraica não retrata Deus como um ser imutável. Além dessa passagem, há outras do tipo que também retratam mudanças na intenção de Deus, como esta:

“Acaso Ezequias, rei de Judá, ou alguém do povo de Judá o matou? Ezequias não temeu ao Senhor e não buscou o seu favor? E o Senhor não se arrependeu da desgraça que pronunciara contra eles? Estamos a ponto de trazer uma terrível desgraça sobre nós! “

Jeremias 26:19

Esta:

E Deus enviou um anjo para destruir Jerusalém. Mas, quando o anjo ia fazê-lo, o Senhor olhou e arrependeu-se de trazer a catástrofe, e ele disse ao anjo destruidor: “Pare! Já basta! “ Naquele momento o anjo do Senhor estava perto da eira de Araúna, o jebuseu.

1 Crônicas 21:15

E esta:

Foi isto que o SENHOR, o Soberano, me mostrou: ele estava preparando enxames de gafanhotos depois da colheita do rei, justo quando brotava a segunda safra.
Depois que eles devoraram todas as plantas dos campos, eu clamei: “SENHOR Soberano, perdoa! Como Jacó poderá sobreviver? Ele é tão pequeno! “
Então o SENHOR arrependeu-se e declarou: “Isso não acontecerá”.

Amós 7:1–3

Ou seja, a mutabilidade é uma característica de Deus constantemente retratada na Bíblia, o que vai de encontro ao teísmo clássico. Contudo, há outras passagens que aparentemente fazem referência a uma certa imutabilidade divina, como esta:

Deus não é homem para que minta, nem filho de homem para que se arrependa. Acaso ele fala, e deixa de agir? Acaso promete, e deixa de cumprir?

Números 23:19

Esta:

Aquele que é a Glória de Israel não mente nem se arrepende, pois não é homem para se arrepender”.

1 Samuel 15:29

E esta:

“De fato, eu, o Senhor, não mudo. Por isso vocês, descendentes de Jacó, não foram destruídos.

Malaquias 3:6

Tendo isso em vista, a primeira coisa que deve ser assinalada é que a Bíblia pode não apresentar uma posição única sobre várias coisas, uma vez que ela possui muitos autores diferentes e, consequentemente, muitas diferentes perspectivas. Porém, no caso em questão, não há inconsistência entre as passagens onde Deus alega não mudar e aquelas outras onde Deus muda de intenção. Se for observado os contextos dessas últimas três passagens onde Deus alega não mudar, será notado que, em todos eles, há referências ao pacto dEle com o Seu povo. Ou seja, a imutabilidade nesse caso se refere somente à eterna fidelidade do pacto de Deus com o Seu povo. Mesmo que Deus apresente mudanças de intenções ou de outras naturezas durante a história, jamais essas mudanças se referirão à quebra de fidelidade desse pacto. Por exemplo, mesmo quando Deus quis destruir o seu povo devido ao bezerro de ouro — arrependendo-se posteriormente — , sua pretensão não era quebrar a fidelidade do pacto, pois, apesar dEle ter desejado destruir aquelas pessoas específicas, Ele diz a Moisés: “Depois farei de você uma grande nação” (Êxodo 32:10). Ou seja, o pacto permaneceria mesmo se aquelas pessoas específicas não existissem mais.

Diante disso, observa-se que Deus é imutável tão somente em relação à Sua fidelidade ao pacto com o Seu povo, porém, a Bíblia retrata Deus como mutável em outros aspectos. O dogma da imutabilidade não possui, portanto, embasamento bíblico, sendo ele uma marca do pensamento grego, herdado especialmente por pensadores cristãos medievais, que associa a perfeição à imutabilidade, o que é bem explicado pelo filósofo judeu Yoram Hazony:

Na Escritura, entretanto, é difícil localizar fontes que apoiem a existência de um domínio comparável a um ser eternamente imutável. Em Gênesis, por exemplo, todas as coisas — incluindo os céus — emergem do vento de Deus soprando nas águas caóticas da criação. Isso significa que, na Bíblia, todas as coisas emergem do movimento e da mudança, sem qualquer referência a uma fonte estática do ser, como os filósofos gregos propuseram.³ Até o próprio Deus é descrito como não possuindo natureza estática, respondendo às perguntas de Moisés sobre sua nome com “Eu serei o que eu serei” (Êxodo 3:14).⁴ E o grande nome de quatro letras de Deus é igualmente expresso no tempo imperfeito, novamente sugerindo incompletude e mudança. Um ser perfeito imutável é uma concepção grega de como Deus deve ser, não bíblica.

Logo, nota-se que a Bíblia não corrobora a imutabilidade divina. Deus é constantemente retratado por vários autores bíblicos diferentes como um ser que apresentou mudanças durante a história e isso jamais foi visto como algo que atenta contra a Sua natureza divina.

Conclusão

Diante do exposto, nota-se que, de fato, o dogma da imutabilidade divina é filosoficamente e biblicamente inconsistente. A inconsistência filosófica, como demonstrado, decorre de uma análise que é racionalmente acessível a qualquer um. Ademais, como visto, esse dogma é uma marca da cultura grega que parasita a imagem, dita clássica, de Deus. Uma vez que, se olharmos para o que tradicionalmente consta na Bíblia Hebraica, não veremos nada que corrobore a imutabilidade divina.

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