Redescobrindo Deus mesmo em uma visão naturalista – Parte 1

Gabriel Brasileiro

Nota: Esse é o primeiro texto de uma série de textos onde irei abordar minuciosamente o longo raciocínio que foi responsável pela minha saída definitiva do ateísmo, o qual foi uma forte posição filosófica minha durante sete anos.

Parte 1

Parte 2

O que candidatos a Deus devem explicar? 

No debate filosófico religioso ocidental, que é fortemente influenciado pela concepção cristã de divindade, Deus é tradicionalmente tratado como uma resposta para a pergunta “por que todas as coisas existem?”. Ou seja, Deus é tratado como aquilo que explicaria todas as coisas existentes. A intuição comum que há nesse debate é que, se algo não explica por que todas as coisas existem, então, esse algo não pode ser Deus. Diante disso, parece que qualquer candidato a Deus deve explicar por que todas as coisas existem. Mas, então, surge a pergunta: o que é exatamente “todas as coisas que existem” que qualquer candidato a Deus deve explicar? 
 
Dito isso, primeiramente, é necessário esclarecer o que são coisas. Evidentemente, na pergunta “por que todas as coisas existem?”, “coisas” pretende se referir indiscriminadamente a tudo diferente de Deus que existe, que é exatamente o que Deus deve explicar. No entanto, “coisas” é um termo polissêmico, uma vez que há um sentido de “coisas” no senso comum que não se refere genericamente a “tudo diferente de Deus que existe”, mas somente a objetos materiais — com massa —, inanimados — sem metabolismo orgânico —, robustos — com alguma firmeza — e que podem ser percebidos diretamente pelos sentidos, como carros, casas, livros, bolas etc. Posto isso, tal polissemia pode prejudicar a investigação filosófica, certo que nem tudo o que existe entra perfeitamente nessa possível caracterização de “coisas”, como veremos a seguir. 
 
Por exemplo, fora de um laboratório em que podem ser armazenados e controlados com precisão, gases dificilmente seriam caracterizados como coisas no mesmo sentido que um carro, uma vez que eles não possuem qualquer robustez que permita identificar onde começam e terminam e geralmente não provocam sensações consistentes, tal como ver e tocar um carro provoca. Contudo, apesar dessa natureza vaga, gases incontroversamente existem. Já em escala fundamental, há exemplos ainda mais desafiadores: as partículas elementares, as quais não podem ser percebidas diretamente pelos sentidos, mas existem. O fóton em especial sequer possui massa de repouso, o que significa que ele, nesse estado, sequer é material. Além disso, campos quânticos e funções de onda distanciam-se mais ainda daquele sentido ordinário de “coisas”, uma vez que eles são essencialmente imateriais, completamente inacessíveis aos sentidos e não apresentam qualquer robustez. Mas, apesar disso, eles estão incontroversamente entre tudo o que existe. Ademais, seres vivos, apesar de materiais, robustos e acessíveis aos sentidos, não são inanimados. Dificilmente alguém caracterizaria um gato, um cachorro ou a si mesmo como “coisas”, mas, evidentemente, existem. Além disso, pensamentos e sentimentos, os quais são exemplos de não fisicalidade para muitos filósofos, também existem, mas qualificá-los como “coisas” não parece correto, pois aparentemente também são imateriais e suas naturezas intangíveis e invisíveis os tornam inacessíveis aos sentidos, além de não apresentarem robustez. Por exemplo, “meu pensamento sobre tal coisa é uma coisa” parece algo esquisito demais de se dizer em qualquer contexto. Além do mais, mercado, sociedade e Estado, se são reais, também existem e não parecem ser “coisas” naquele sentido do senso comum, afinal, não são robustos e não podem ser percebidos pelos sentidos do mesmo modo que um carro, por exemplo. Além de que caracterizá-los como materiais não parece fazer sentido a princípio. Por fim, comportamentos e relações em geral, o que inclui processos, causalidades, dependências ontológicas, fundações etc, definitivamente não são coisas, uma vez que incontroversamente sequer são objetos.  
 
Diante desses exemplos, podemos notar que o termo “coisas” na pergunta “por que todas as coisas existem?”, a fim de se referir a “tudo diferente de Deus que existe”, mostra-se problemático, uma vez que, dado um de seus possíveis significados mais populares, nem tudo o que existe entra na categoria de “coisas”. Posto isso, se houver algum termo que abarque tudo o que foi exposto anteriormente sem qualquer ambiguidade e complicação, ele é preferível. Desse modo, podemos pegar emprestado de Wittgenstein um termo que parece útil para essa finalidade: “fatos”, que podemos usar para denotar indiscriminadamente, sem ambiguidades e complicações, tudo diferente de Deus que existe. Nesses termos, para ser um fato, basta existir, seja lá o que for. Portanto, se existe, é fato, e, se é fato, existe. Desse modo, a pergunta colocada de melhor modo seria: por que todos os fatos existem? 

No entanto, apesar desses esclarecimentos, a pergunta “por que todos os fatos existem?” ainda possui relativa obscuridade. Afinal, talvez a existência de cada fato particular possa ser explicada por outros fatos particulares com os quais cada um mantém ou manteve relação e, assim, as existências de todos os fatos particulares explicariam-se mutuamente ou sucessivamente sem precisar apelar para algo fora da coleção de fatos particulares, como Deus. No entanto, a pergunta “por que todos os fatos existem?” é mais profunda, pois, mesmo que a existência de cada fato particular possa ser explicada por relações que eles mantêm entre si, as próprias relações que os fatos mantêm entre si também são fatos que são alvos da pergunta “por que existem?”. Afinal, se os fatos explicam as existências de outros fatos através de suas relações, por que há tais relações entre fatos em primeiro lugar? Por que, ao invés da grande coleção de fatos onde suas relações estão inclusas, não há nada? Vista dessa perspectiva, a pergunta “por que todos os fatos existem?” mostra-se realmente mais profunda, em razão de ela estar preocupada com o porquê de a própria coleção de todos fatos existir. Além disso, quando se fala “existem” na pergunta “por que todos os fatos existem?”, isso deve ser compreendido como um modo de falar, pois a pergunta não está preocupada apenas com os fatos que existem no presente, mas também com todos os fatos que existiram no passado e que existirão no futuro. Ou seja, a pergunta está preocupada com a coleção de todos os fatos que existiram, existem e existirão. E, considerando os devidos esclarecimentos, é essa pergunta que candidatos a Deus devem responder.
 
Mas, o que é existir? 
 
Mas, após o esclarecimento anterior, surge outra questão: o que é “existir”? Alguns filósofos diriam que “existir” significa ter uma localização no espaço e no tempo. No entanto, se essa definição é correta, paradoxalmente, não poderíamos dizer que o próprio espaço-tempo existe, uma vez que ele não está no espaço e no tempo; ele é o espaço e o tempo. Contudo, dizer que o espaço-tempo não existe é esdrúxulo. Afinal, dado o conhecimento científico atual, o espaço-tempo é indubitavelmente real, certo que ele é detectável empiricamente através de seus comportamentos. E ser empiricamente detectável parece ser suficiente para ser tratado como existente, tanto para a ciência quanto para o senso comum. Dito isso, alguém poderia propor que “existir” é ser empiricamente detectável. Mas, isso levantaria outro problema: o que é ser empiricamente detectável? Por exemplo, partículas virtuais, devido aos seus rápidos surgimentos e desaparecimentos, são impossíveis de serem detectadas experimentalmente tal como partículas reais, mas, apesar disso, há efeitos observáveis que são creditados a elas, como o Efeito Casimir. Nesse caso, diríamos que partículas virtuais são empiricamente detectáveis ou não? Depende do quão abrangente é a definição de “empiricamente detectável”. Além disso, se funções de onda existem, é impossível observá-las diretamente, mas, apesar disso, os defensores da realidade das funções de onda baseiam-se em comportamentos observáveis da realidade que são creditados a elas. Nesse caso, diríamos que funções de onda são empiricamente detectáveis ou não? Novamente, depende do quão abrangente é a definição de “empiricamente detectável”. Diante de exemplos do tipo, fica menos óbvio tratar “existir” como ser simplesmente empiricamente detectável, uma vez que essa definição levanta insatisfatoriamente outras controvérsias que apenas estendem o problema de definir “existir”.  
 
Já outra possível definição de “existir” seria “ser um indivíduo postulado em alguma teoria que descreve o mundo”, em termos de comprometimento ontológico. Contudo, isso também parece pouco esclarecedor. Por exemplo, o horizonte de eventos de um buraco negro existe? Em razão de o horizonte de eventos de um buraco negro ser um indivíduo postulado por teorias que descrevem buracos negros, podemos dizer que ele existe. Mas, no caso, dizer que ele existe pode significar tanto que ele existe realmente — que existe de fato no mundo fora da mente — quanto que ele existe apenas teoricamente — que existe apenas como uma abstração mental. No primeiro caso, alguém poderia dizer que ele “existe de verdade”, já, no segundo caso, alguém poderia dizer que ele “não existe de verdade”. Porém, outro alguém poderia dizer que, mesmo sendo apenas mentais, entidades abstratas existem de maneira genuína, afinal, a mente pode ser tratada como existindo genuinamente no mundo. Desse modo, estaríamos novamente diante de uma definição pouco esclarecedora, uma vez que carrega insatisfatoriamente inúmeros outras controvérsias envolvendo o que é “existir”. Outra possibilidade seria dizer que “existir” é ser quantificado existencialmente, segundo a linguagem da lógica proposicional. Contudo, essa definição é circular, afinal, ser quantificado existencialmente é apenas outro nome para “existir”. Portanto, haveria apenas a transferência do problema para outros termos: o que é ser quantificado existencialmente?  
 
Diante disso, talvez qualquer tentativa de definir existência levante inevitavelmente controvérsias. Mas, talvez não precisemos ser tão detalhistas a princípio sobre o que é exatamente “existir”. Basta que haja uma noção de “existir” que é compreendida intuitivamente pelos falantes, mesmo que eles não saibam a definir. Por exemplo, as pessoas sabem que elas mesmas existem em algum sentido e, portanto, reconhecem intuitivamente alguma noção de existência, apesar de não necessariamente saberem definir o que é “existir”. Do mesmo modo, as pessoas constantemente se referem diretamente a fatos que “estão aí no mundo”, que é uma noção de existência que não precisa ser definida precisamente para ser reconhecida intuitivamente. Essa noção aparece a nós como sendo tão básica que seu reconhecimento precede qualquer tentativa de defini-la. Ou seja, parece haver uma noção comum que, mesmo que ninguém esteja de acordo acerca de seu significado, todos são capazes de igualmente reconhecê-la intuitivamente. Nesse sentido, podemos falar sobre “todos os fatos que existiram, existem e existirão” sem precisar nos envolvermos em grandes controvérsias. O que é “existir”? É aquela noção que todos que tentam defini-la reconhecem antes de propor qualquer definição.

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